Uma cicloviagem em cada saída de férias, sozinha ou acompanhada
Cândida Azevedo fala com a bicicleta funciona como uma verdadeira terapia no dia a dia, além de ser o meio de transporte de várias aventuras no Brasil e no mundo.


Cândida Azevedo não precisa esperar uma grande mudança na vida para viajar de bicicleta. A cada período de férias, ela escolhe um destino e coloca a bicicleta na estrada. Em 14 anos de cicloturismo, já pedalou pelo Brasil e por países como Estados Unidos, Islândia, Dinamarca e Suécia. Algumas viagens foram sozinha, outras acompanhada.
A primeira aconteceu quase por acaso. Cândida tinha comprado a bicicleta havia apenas 15 dias quando recebeu o convite de uma tia para fazer o Vale Europeu, em Santa Catarina. Até então, seu maior percurso tinha sido de aproximadamente dois quilômetros no bairro. Ela praticamente empurrou a bicicleta durante a viagem, mas voltou com uma certeza: queria fazer aquilo de novo.
Viajar sozinha, em grupo ou com o companheiro
Com o tempo, Cândida descobriu que a mesma viagem de bicicleta pode proporcionar experiências muito diferentes dependendo de quem está ao lado. Sozinha, ela gosta da liberdade de escolher o ritmo, o horário e o caminho. É também quando encontra tempo para cuidar de si.
“Eu entendi os meus limites, entendi que eu sou bem mais forte do que eu pensava.”
Em grupo, a dinâmica muda. É preciso respeitar o ritmo dos outros e dividir decisões, mas também existe a troca de experiências durante o caminho. Com Marcelo, seu companheiro, a bicicleta ganhou ainda outra dimensão.
Os dois se conheceram antes de uma viagem de bicicleta entre Amsterdã e Paris. Marcelo a convidou para a viagem sem sequer tê-la encontrado pessoalmente. Foram mais de 20 dias resolvendo juntos problemas de percurso, cansaço e logística. Depois da viagem, começaram a namorar.
Hoje, Cândida considera que viajar de bicicleta também fortaleceu a relação. Quando aparecem dificuldades, os dois costumam parar, analisar as possibilidades e decidir juntos.
Não é preciso largar tudo para viajar de bicicleta
Cândida trabalha e concentra suas viagens no período de férias. A maior delas durou 40 dias. Por isso, o planejamento faz parte da experiência: ela estima quantos quilômetros poderá percorrer por dia, define possíveis lugares para dormir e reserva períodos de descanso.
O roteiro, porém, não é uma obrigação. Se precisar pegar um ônibus, um trem ou pedir uma carona, ela simplesmente segue viagem. Em uma das ocasiões, chegou a pedir carona escolhendo os veículos que tinham espaço suficiente para a bicicleta.
“Eu não estou competindo com ninguém também.”
É essa relação menos rígida com o planejamento que, para Cândida, permite conciliar o cicloturismo com uma rotina de trabalho. Não é preciso largar tudo para fazer uma viagem de bicicleta. É possível começar com as férias, um feriado prolongado ou o tempo que estiver disponível.
O dia em que um urso apareceu no Alasca
Algumas viagens, no entanto, apresentam situações que não estavam no planejamento. No Alasca, Cândida e Marcelo estavam com as bicicletas bastante carregadas porque passariam entre 10 e 15 dias sem encontrar um lugar para comprar comida.
Depois de cerca de 20 a 30 quilômetros, o suporte da bicicleta de Marcelo quebrou. Enquanto os dois desmontavam os equipamentos para tentar resolver o problema, Cândida percebeu um urso-pardo se aproximando pela estrada.
O animal chegou a aproximadamente 15 metros dos dois. Uma van de uma empresa petrolífera parou e o motorista pediu que entrassem no veículo. Marcelo entrou. Cândida preferiu ficar do lado de fora.
O urso atravessou a estrada e foi embora.
Em vez de guardar a situação apenas como um perrengue, Cândida conta a história com outra perspectiva. Ver um urso durante uma viagem ao Alasca era justamente uma das coisas que ela esperava encontrar.
“Era a coisa que eu mais queria.”
O medo não pode impedir a viagem
O medo, aliás, acompanha Cândida antes de praticamente todas as viagens. Mesmo depois de tantos anos de cicloturismo, ela conta que começa os percursos com dúvidas sobre sua capacidade de completá-los.
Na Islândia, esse sentimento apareceu de forma mais intensa. O vento forte e as mudanças repentinas de tempo tornaram o percurso difícil. Em determinado momento, uma pessoa chegou a questionar sua decisão de estar viajando de bicicleta sozinha.
Mais tarde, em um café, uma turista a abordou, elogiou sua força e comprou uma sopa para ela. O gesto mudou seu estado de espírito.
“Daí me motivou a continuar a viagem.”
A experiência reforçou uma ideia que Cândida leva para as viagens: sentir medo não significa necessariamente que seja preciso desistir.
“Eu não deixo que esse medo me freie.”
“Não tenho a bike ideal”: vá com o que você tem
Cândida também aprendeu que não é preciso ter a bicicleta perfeita para começar a viajar. No início do cicloturismo, ela sequer sabia desmontar a própria bicicleta e precisou aprender, na prática, a lidar com problemas mecânicos.
Com o tempo, também passou a carregar menos bagagem e a planejar melhor roupas e equipamentos.
A recomendação que ficou dessa experiência é simples:
“Não precisa, vai com o que tu tem.”
Para ela, uma bicicleta mais simples pode até facilitar a viagem, já que tende a ser mais fácil encontrar quem consiga fazer um reparo pelo caminho. O equipamento ideal, portanto, não deve ser uma condição para começar uma viagem de bicicleta.
A força que aparece durante o caminho
Antes de sair de casa, Cândida ainda sente aquela mistura de ansiedade, medo e dúvida. O que mudou foi o que ela faz depois que começa a pedalar.
A cada viagem, percebe que consegue avançar mais do que imaginava. Foi assim desde a primeira experiência no Vale Europeu e continua acontecendo, mesmo depois de viagens pelo Alasca, Islândia e Europa.
“Eu vou muito mais além do que eu achei que eu pudesse ir.”