O que leva alguém a largar emprego e viajar o mundo de bicicleta?
Brenner Monteiro conta sua viagem que acabou em casamento na França


A ideia de largar o emprego, deixar para trás a rotina e viajar o mundo de bicicleta pode parecer, para muita gente, uma decisão impossível. Para Brenner Monteiro, porém, esse sonho começou de uma maneira bem mais simples: com uma bicicleta, algumas viagens de férias e a vontade de descobrir até onde era possível chegar sobre duas rodas.
A história de Brenner mostra que uma volta ao mundo de bicicleta não necessariamente começa com um grande planejamento.
Dá para viajar com pouco dinheiro
Brenner fez sua primeira viagem de bicicleta em janeiro de 2016. “Foi uma pequena viagem de sair de Mogi das Cruzes e descer a serra ali pro litoral de São Paulo, Bertioga, depois de Santos. Fui até Paraty, viajei durante 15 dias”, conta
Logo em sua primeira experiência em cicloturismo, pôde reviver o velho hábito de acampar. Foi o melhor dos dois mundos. Além de dar mais autonomia, o camping selvagem também ajudava a economizar dinheiro.
Brenner conta que não começou o cicloturismo com equipamentos sofisticados ou com muito dinheiro disponível para investir. A bicicleta usada na primeira viagem foi comprada em 12 parcelas. Um mês depois, ela foi roubada. A solução foi procurar uma bicicleta mais barata: uma Caloi antiga, que ele encontrou no OLX.
“Eu fui adquirindo alguns equipamentos que eu não tinha condição financeira", se diverte. Até os primeiros alforjes foram improvisados. Brenner comprou uma bolsa de tecido e colocou dentro dela sacos plásticos grossos usados para guardar ração de cachorro, protegendo as roupas da chuva.
O jeitinho brasileiro deu resultado.
De uma viagem de 15 dias à volta ao mundo de bicicleta
Depois da primeira viagem, a percepção de Brenner sobre o que era possível fazer mudou. “Dali eu já coloquei na minha cabeça que não tinha nada mais impossível, vamos dizer assim. Era só pouco de planejamento, de paciência", explica.
Ele continuou fazendo viagens durante as férias. Em 2017 e 2018, novas experiências aumentaram sua confiança, enquanto sua relação com o trabalho começava a mudar.
“O serviço começou a ficar cansativo, eu comecei a ter desgosto pelo trabalho, diz.
Foi nesse momento que as coisas começaram a se juntar. Em novembro de 2018, ele deixou o emprego e passou quase dois meses se preparando. Em dezembro, pegou um ônibus para Florianópolis e iniciou uma viagem sem data para voltar.
A ideia inicial era seguir pelo sul do Brasil, passar pela região dos cânions, percorrer a costa do Uruguai, entrar na Argentina e no Chile e depois continuar subindo.
Mas não havia um roteiro completamente fechado.
Viajar sem saber exatamente para onde ir
Uma das características da viagem de Brenner foi justamente deixar espaço para que a estrada modificasse seus planos. “Eu tinha uma ideia de lugares pra onde passar. Porém, eu não sabia como ia chegar lá.”
Em vez de seguir um roteiro rígido, ele passou a ouvir recomendações das pessoas que encontrava pelo caminho. “Pessoas que viviam ali falavam: ‘não, vai pra ali, é mais bonito’. Ou ‘é menos perigoso’. Então, eu fui aberto", explica.
Essa maneira de viajar levou Brenner para a Patagônia. Um viajante espanhol que conheceu durante a viagem recomendou que ele seguisse para a região.
A decisão acabou sendo importante não apenas para a viagem, mas para sua vida pessoal.
Foi na Patagônia, em Bariloche, que Brenner conheceu Margot, que posteriormente se tornou sua esposa.
Quando uma viagem muda o rumo da vida
Brenner já estava viajando havia cerca de um ano pela América do Sul quando chegou à região de Bariloche, na Argentina. Ele estava no Caminho dos Sete Lagos, na Patagônia, viajando com um pequeno grupo de cicloviajantes: um argentino, uma equatoriana e um francês.
Foi justamente o francês que fez o papel de cupido entre Brenner e Margot, também francesa. Ela estava percorrendo a América do Sul de Mochila. Foi em Bariloche que a coisa toda aconteceu.
A união foi tão forte que a garota logo embarcou na viagem de Brenner. Os dois seguiram viajando juntos pela Patagônia. Anos depois, essa relação também levou Brenner à França, onde se casaram. “Ela me colocou na bagagem dela e me trouxe pra cá”, brinca ele.
Quando o pai entrou na viagem
Antes de viajar, o pai de Brenner não apoiava muito a ideia. Mas, depois que o filho fez suas primeiras viagens, a relação com o projeto mudou. Quando Brenner estava em Urubici, Santa Catarina, recebeu uma mensagem inesperada.
“Ele me manda uma mensagem um mês antes e fala: ‘eu vou pegar férias no trabalho no mês de abril e eu vou pegar ônibus e encontrar com você’", conta.
O pai acabou viajando com ele durante 15 dias. “Algo que antes ele não apoiava, algum tempo depois ele estava ali do meu lado. Então foi algo que marcou muito.”
Brenner se emociona ao lembrar do episódio, pois seu pai faleceu alguns anos depois.
Os dois chegaram a fazer 150 quilômetros no último dia da viagem, além de dormirem em posto de gasolina e enfrentarem juntos as dificuldades da estrada.
“A gente se conectou muito mais como pai, filho e também como amigos.”
O que Brenner diria para quem tem medo de partir?
A resposta é categórica: “Não tenha medo do imprevisto, do desconhecido. Se der errado, siga tentando, muda de plano. Se é o que você quer, faça. Vai atrás com toda a sua força e vontade. Só faça, só faça, não desista.”