Luiz Milner e sua viagem de 30 mil km pelas Américas aos 60 anos de idade
Depois de oito anos trabalhando para quitar uma dívida, produtor rural arrenda seu sítio e sobe numa bicicleta para explorar países da América do Sul, Central e do Norte.


Aos quase 60 anos, Luiz Milner tomou uma decisão que mudaria completamente sua rotina: arrendou o sítio onde produzia frutas vermelhas, deixou o trabalho e saiu de bicicleta para uma viagem de dois anos pelas Américas.
A partida aconteceu depois de um período marcado por dificuldades financeiras, um divórcio e a morte repentina de um primo muito próximo. Em 2014, Luiz havia contraído um financiamento para construir uma estufa agrícola, mas perdeu parte da produção em um ano de calor intenso. A dívida levou oito anos para ser quitada.
Quando finalmente conseguiu pagar o que devia, Luiz percebeu que precisava fazer alguma coisa diferente. “Eu estava ficando pouco louco”, conta. Segundo ele, os anos trabalhando para pagar a dívida fizeram com que deixasse de enxergar a beleza do próprio trabalho.
A bicicleta já havia sido importante em outros momentos de sua vida. Depois do divórcio, ele encontrou nas pedaladas uma maneira de enfrentar o período difícil. Desta vez, porém, a ideia era ir muito mais longe.
Despreparo e os primeiros desafios
Luiz pesquisou sobre viagens de bicicleta, mas admite que sua preparação técnica foi pequena. A principal preocupação antes da partida era financeira e familiar: garantir que os filhos e as responsabilidades deixadas no Brasil estivessem organizados.
Na estrada, percebeu rapidamente que precisaria aprender muita coisa.
Ainda nas primeiras semanas, sofreu uma hipotermia no sul de Minas Gerais. Ele havia comprado um saco de dormir sem saber que os equipamentos possuem diferentes faixas de temperatura. Também percebeu que carregava objetos desnecessários e despachou de volta para casa itens como uma cadeira e um computador.
O roteiro também foi sendo definido durante a viagem. O plano inicial ia até a Chapada Diamantina. Depois disso, Luiz passou a descobrir os caminhos enquanto pedalava.
Foi assim que a viagem deixou de ser apenas um roteiro de dois anos e passou a ser construída dia após dia.
O desafio de viajar aos 60
Luiz não se considerava atleta. Antes da viagem, havia fumado por 20 anos e enfrentado problemas respiratórios. Ainda assim, percorreu aproximadamente 30 mil quilômetros de bicicleta.
No início, ele próprio duvidava que conseguiria permanecer tanto tempo na estrada. Achava que talvez voltasse para casa depois de dois meses.
O centésimo dia de viagem, em Belém, tornou-se simbólico. Ao perceber que já havia ultrapassado o período que imaginava suportar, Luiz começou a entender que a viagem poderia realmente durar os dois anos planejados.
Parte dessa força veio das pessoas encontradas pelo caminho.
Acolhimento pelo caminho
Durante a viagem, Luiz foi recebido diversas vezes por pessoas que nunca havia encontrado antes. Na Venezuela, foram cerca de 3 mil quilômetros e 60 noites no país. Segundo ele, apenas duas foram pagas.
Grupos de ciclistas avisavam outros viajantes sobre sua passagem e, em algumas cidades, diferentes pessoas queriam hospedá-lo.
Para Luiz, a bicicleta teve papel importante nessa aproximação. Ele passou a enxergá-la como um “passaporte diplomático”, por permitir uma interação diferente com quem estava na estrada.
A experiência também colocou em xeque alguns dos medos que carregava antes da viagem. Em vez de depender de conforto e estrutura, passou a se adaptar ao que encontrava.
Quando o medo quase fez a viagem parar
Nem todos os desafios foram superados com facilidade.
Na Carretera Austral, no Chile, Luiz enfrentou novamente uma forte hipotermia depois de continuar pedalando sob chuva e temperaturas próximas de zero. Chegou ao destino tremendo e confuso e, naquele momento, decidiu que iria interromper a viagem.
A situação serviu também como aprendizado sobre os próprios limites. Depois de um ano e meio viajando, precisou da ajuda de outro ciclista para montar sua barraca.
O episódio não encerrou a jornada.
Outro desafio foi o medo de altura. No Panamá, Luiz precisou atravessar uma ponte que lhe provocou grande apreensão. Sem outra alternativa, decidiu seguir pedalando.
“Vamos com medo”, lembra sobre o momento em que precisou enfrentar a situação.
Uma nova relação com a própria vida
Ao longo dos dois anos, a viagem também provocou mudanças que iam além da bicicleta.
Luiz passou a questionar a ideia de que precisava trabalhar continuamente e percebeu que carregava uma sensação de que não havia feito o suficiente para “merecer” parar e viajar.
A estrada mudou essa percepção.
“Eu mereço viajar, eu mereço, a vida é uma só”, afirma.
Ao retornar, outra descoberta permanecia entre as mais importantes: a possibilidade de viver com menos. Para Luiz, carregar tudo o que precisava na bicicleta mostrou que o consumo e o trabalho ocupavam um espaço maior do que deveriam.
A experiência também modificou sua percepção sobre as pessoas. Depois de depender inúmeras vezes da ajuda de desconhecidos, ele voltou com uma visão diferente daquela construída pelos medos e pelas notícias do cotidiano.
“Uma coisa muito importante para mim foi descobrir que a humanidade é boa.”