Junior Souza: De sedentário obeso a ultraciclista

Após enfrentar a obesidade, ciclista amador encontrou na bicicleta uma forma de cuidar da saúde, conhecer lugares e rever prioridades. Hoje, participa de provas autossuficientes de longa distância sem abrir mão de viver o caminho.

11/4/20264 min read

Em 2019, Junior Souza pesava cerca de 110 quilos e enfrentava um quadro de obesidade de nível 2. Foi quando decidiu tirar da garagem uma bicicleta simples, aro 26, e começar a pedalar em grupos de ciclismo noturno. A experiência logo o levou aos chamados longões, percursos de 100 km ou mais, e abriu caminho para as provas de longa distância.

Antes disso, Junior já gostava de viajar de moto. Na bicicleta, porém, encontrou outra maneira de conhecer os lugares. O interesse pelo percurso, mais do que pela chegada, tornou-se parte central de sua relação com o pedal.

“Eu nunca gostei de acabar a viagem, eu sempre gosto de viver a viagem”, conta.

A mudança também teve efeitos na saúde. Antes da pandemia de Covid-19, ele já havia perdido aproximadamente 30 quilos. Para Junior, a bicicleta foi decisiva em um período em que sua condição física começava a limitar sua vida.

“A bicicleta salvou minha vida”, afirma.

Ultraciclismo e cicloturismo: viver o caminho

Desde 2019, Junior participou de mais de 50 provas de longa distância, com percursos que vão de 200 a 1.200 km. Uma das experiências recentes foi a Inca Divide, no Peru, em que percorreu cerca de 1.100 km pelos Andes, enfrentando grandes altitudes, frio e mudanças no percurso provocadas por uma nevasca.

Apesar do caráter competitivo, ele não se identifica exclusivamente como ultraciclista. Para Junior, as provas autossuficientes compartilham características fundamentais com o cicloturismo: planejamento, autonomia e capacidade de resolver imprevistos.

“Eu não sacrifico a minha experiência”, explica. Mesmo durante uma prova, ele não deixa de conversar com outros ciclistas, parar para comer ou ajudar alguém que precise.

A diferença está principalmente nas regras: em uma competição, há percurso definido e tempo limite. Mas, para ele, o desafio mais importante continua sendo pessoal.

“A competição é com você mesmo.”

A experiência acima do desempenho

No Peru, Junior enfrentou altitudes superiores a 4 mil metros pela primeira vez. A redução da capacidade física exigiu que diminuísse o ritmo e respeitasse os limites do corpo. Em vez de tratar essas dificuldades apenas como sofrimento, ele procura encará-las como parte da experiência.

“Então faça amizade com ela”, diz, ao falar da montanha. Para o ciclista, não faz sentido tentar vencer a qualquer custo uma subida que continuará ali mesmo depois que o ciclista for embora.

A viagem também trouxe uma reflexão pessoal. Ao chegar acima dos 4 mil metros, Junior sentiu uma forte sensação de paz e passou a rever conflitos e mágoas. A dimensão das montanhas o ajudou a perceber que algumas questões que carregava talvez não tivessem a importância que lhes atribuía.

“Meus problemas são muito pequenos pra eu ficar carregando eles junto comigo”, recorda.

A experiência reforçou sua disposição para mudar de opinião, de rota e de ritmo — tanto na bicicleta quanto fora dela.

Acolhimento e economia local

A relação com as pessoas encontradas pelo caminho é outro aspecto importante de suas viagens. Junior conta que foi bem recebido em diferentes países e destaca a solidariedade que vivenciou durante os pedais.

Em uma cicloviagem pela Serra do Mar, por exemplo, ele e um amigo receberam ofertas espontâneas de hospedagem de moradores e comerciantes. Em uma das ocasiões, puderam montar a barraca em uma área coberta, com acesso ao banheiro; em outra, ficaram em uma casa vazia oferecida por um comerciante.

Para ele, experiências assim mostram que a viagem não depende apenas do equipamento carregado na bicicleta. Também envolve as relações construídas durante o percurso.

Junior prefere levar comida para emergências e planejar paradas em cidades e pequenos comércios. Além de facilitar a viagem, essa estratégia permite conhecer a gastronomia local e conversar com quem vive na região.

“Eu também gosto de apreciar a economia local e de fomentar também a economia local”, afirma.

O potencial do cicloturismo brasileiro

As viagens também ampliaram sua percepção sobre o potencial do Brasil para o cicloturismo. Junior cita experiências como a Estrada Real e rotas que percorrem regiões de montanha e estradas vicinais. Para ele, há muitos caminhos interessantes que ainda recebem pouca divulgação e apoio.

A falta de incentivo, segundo sua percepção, limita o desenvolvimento dessa atividade. Ele acredita que divulgar mais experiências e informações sobre cicloturismo pode ajudar a aproximar outras pessoas da bicicleta.

Junior também chama atenção para as barreiras sociais de acesso à prática. Na avaliação dele, a pouca circulação de informações e as diferentes condições financeiras ajudam a explicar por que o cicloturismo ainda não faz parte da realidade de mais brasileiros, especialmente de pessoas negras e de grupos com menos recursos.

Por isso, usa suas redes sociais para compartilhar as viagens e incentivar outras pessoas a pedalar. Ele afirma que já recebeu relatos de seguidores que começaram a andar de bicicleta inspirados por seu conteúdo.

“Ganha vida, ganha amigos, ganha experiência. Quer que é mais o que, né?”, resume.

Uma nova relação com a família e com o trabalho

A transformação provocada pela bicicleta também chegou à vida familiar. Junior conta que, antes de começar a pedalar, sua rotina era concentrada no trabalho e que passava pouco tempo com a família. Hoje, diz ser um marido melhor e um pai mais presente, percepção que atribui também aos relatos de sua esposa.

Ele continua trabalhando, mas reorganizou suas prioridades. A saúde e a família passaram a ocupar o centro de suas decisões, enquanto o pedal ganhou espaço no tempo livre. A esposa e as filhas também compartilham o interesse pela bicicleta, e ele planeja novas viagens com a companheira.

A mudança, segundo Junior, vai além da perda de peso ou do desempenho esportivo. Pedalar alterou sua maneira de se relacionar com as pessoas, com o trabalho e consigo mesmo.

Para quem acredita que não consegue começar, seu conselho é encontrar um objetivo próprio, respeitar o próprio momento e dar movimento à vida. Pode ser cuidar da saúde, percorrer uma distância maior ou realizar o sonho de conhecer uma rota.

“A única pessoa que é o representante do seu sonho na face da Terra é você, meu amigo.”