De uma bicicleta no porão a 10 mil quilômetros até Ushuaia

Sem experiência, com uma mochila de 80 litros e cerca de 50 quilos de bagagem, Mariano de Souza começou a viajar de bicicleta durante a pandemia e, em poucos anos, transformou o pedal em um estilo de vida

10/8/20264 min read

Tudo começou com uma bicicleta esquecida

Mariano de Souza não tinha experiência com ciclismo quando começou a viajar. Depois de andar de bicicleta com o pai na infância, passou anos sem contato com o pedal. Foi durante a pandemia, quando estava em casa, que o amigo Bruno colocou novamente uma bicicleta em sua vida.

A primeira experiência foi simples: algumas voltas pela cidade. Pouco depois, Mariano decidiu testar seus limites em um percurso de aproximadamente 60 quilômetros até uma cachoeira. Ele tinha apenas duas semanas de experiência.

“Eu acreditei no meu potencial”, lembra, aos risos.

A experiência foi suficiente para despertar a vontade de viajar. Depois de assistir a vídeos de pessoas cruzando grandes distâncias de bicicleta, os dois decidiram partir para a primeira viagem.

O planejamento, porém, estava longe do ideal.

50 quilos e uma mochila de 80 litros

Na primeira viagem, Mariano levou praticamente tudo o que tinha no guarda-roupa. Em vez de alforges, utilizou uma mochila de 80 litros presa à bicicleta com cordas, além de outros volumes.

“50 quilos atrás da minha bicicleta, aí vamos embora!”, diverte-se.

Os problemas começaram nos primeiros quilômetros. A bagagem caiu e precisou ser reorganizada no meio do caminho. Mesmo assim, Mariano não pensou em desistir. Seu plano era chegar à Chapada dos Veadeiros e, caso nada desse certo, voltar para casa.

A chegada, no entanto, mudou a viagem.

Depois de enfrentar subidas, cansaço e cerca de 800 metros de ganho de elevação em apenas 60 quilômetros, Mariano e Bruno encontraram um ciclista chamado Gerson. O homem ofereceu hospedagem em seu sítio e ainda ensinou aos dois como se alimentar durante o percurso.

Para Mariano, aquele encontro marcou a primeira viagem.

“Eu acho que aquilo deu muita força. Falar: caralho, alguém tá acreditando na gente.”

Ao chegar à Chapada dos Veadeiros, a dupla tomou uma decisão prática: boa parte do que carregava era desnecessária e acabou sendo descartada.

A estrada como escola

Depois da Chapada dos Veadeiros, a viagem ganhou outra dimensão. Mariano e Bruno passaram a fazer trajetos maiores e a experimentar diferentes formas de viajar. Também começaram a aprender a viajar com pouco dinheiro.

Segundo Mariano, essa experiência foi uma das maiores escolas de sua trajetória. Eles passaram a procurar alternativas para alimentação, banho e hospedagem, contando muitas vezes com a ajuda de pessoas encontradas pelo caminho.

Em alguns momentos, conseguiam comida em restaurantes ou postos de gasolina. Em outros, contavam com a solidariedade de caminhoneiros.

“Se eu tenho como exemplo ser viajado no Brasil sem real no bolso e aprendido a manguear, eu viajei o mundo inteiro.”

A experiência também mudou sua relação com a bagagem. Depois de começar carregando cerca de 50 quilos, Mariano adotou o bikepacking e passou a viajar com muito menos peso.

Hoje, segundo ele, normalmente carrega cerca de sete quilos em viagens pelo Brasil. Fora do país, chega a aproximadamente dez; em travessias que exigem mais comida, pode chegar a 15.

“Hoje, se tiver 15 kg, eu estou reclamando. Acho que tem alguma coisa errada.”

O acidente que mudou a viagem

A longa travessia pelo Nordeste teve um momento decisivo perto de Salvador. Mariano e Bruno pedalavam à noite por uma rodovia, sob chuva, quando decidiram se separar temporariamente para buscar ajuda depois de um problema mecânico.

A decisão acabou provocando um acidente.

Ao tentar alcançar um caminhoneiro, Mariano caiu em uma valeta e deslocou o ombro. Foi levado de ambulância para um hospital, enquanto Bruno ficou sem saber exatamente o que havia acontecido.

Sem celular e separado do amigo, Mariano passou horas no hospital. Depois de receber atendimento, precisou percorrer novamente parte do caminho para tentar reencontrá-lo.

O encontro aconteceu em Salvador.

“Mano, eu nunca chorei tanto.”

A lesão o deixou cinco meses sem conseguir continuar a viagem normalmente. Durante parte da recuperação, Bruno seguiu lentamente pelo Nordeste, enquanto Mariano voltou para casa para fazer fisioterapia.

Depois de dois meses de recuperação, decidiu voltar à estrada — dessa vez sozinho.

Pela primeira vez, sozinho

A viagem solo levou Mariano a percorrer cerca de 3 mil quilômetros para reencontrar Bruno. No caminho, fez trechos de 100 e 150 quilômetros por dia e atravessou regiões como o Jalapão e a Chapada das Mesas.

Os dois voltaram a viajar juntos e chegaram até Letícia, na Colômbia. Mas a parceria começou a tomar novos rumos. Bruno recebeu uma bolsa para estudar na França, enquanto Mariano decidiu continuar viajando.

A separação do amigo, que havia participado de todo o projeto desde o começo, teve um peso emocional importante.

“Eu sempre levei o nosso sonho e sempre mandei mensagem a viagem inteira falando que ia carregar o sonho.”

Da América Latina à Patagônia

Depois de mais de dois anos de viagens, Mariano voltou para casa. A experiência, segundo ele, havia transformado sua maneira de enxergar a vida.

Pouco depois, decidiu partir novamente, dessa vez com mais estrutura e equipamento. Trocou de bicicleta, comprou novos equipamentos e se preparou para atravessar a Patagônia.

Saiu pedalando de casa, em São Paulo, e percorreu aproximadamente 10 mil quilômetros até Ushuaia.

A experiência foi, para ele, a consolidação de tudo o que havia aprendido desde aquela primeira viagem improvisada. Depois de meses na estrada, chegou ao destino e iniciou o retorno.

“Foi tipo uma baita experiência.”

Quando finalmente voltou para casa, porém, encontrou uma dificuldade que não esperava: depois de anos vivendo na estrada, veio uma nova fase de sua vida.

“E aí depois disso, vem uma nova fase, que é a depressão, mano.”