De bicicleta pelo Nordeste com duas pranchas de surf: a viagem de João Zugaib
Viajar o nordeste brasileiro surfando as melhores ondas, tudo isso sem data para finalizar. É o sonho que João Zugaib nutre desde a adolescência e agora está se tornando realidade.


Unir duas paixões que acompanham sua vida há décadas: viajar de bicicleta e surfar. Foi essa a ideia que levou João Zugaib a colocar duas pranchas de surf na bicicleta e partir de Ilhéus, na Bahia, em direção às pororocas do Maranhão.
“Eu queria unir duas coisas que eu amo muito, que é viajar de bike e surfar. Então eu decidi que eu ia fazer uma ciclo-surfe-viagem”, conta João. A proposta também tinha outro componente: fazer algo autoral. Ele não conhecia ninguém que tivesse realizado uma viagem desse tipo e isso o motivou ainda mais.
Uma viagem que começou aos 15 anos
A relação de João com as viagens de bicicleta não começou agora. Aos 15 anos, ele já percorria o trecho entre Ilhéus e Itacaré, inicialmente com amigos e depois levando sua própria prancha de surf na bicicleta. Eram viagens de cerca de 65 quilômetros pela estrada que hoje liga as duas cidades.
A família, especialmente sua mãe, ficava preocupada com aquelas aventuras. Décadas depois, porém, João percebe que a relação mudou. “Hoje minha mãe está muito tranquila, com essa minha viagem mais longa”, afirma.
A viagem atual recupera justamente essa relação com o adolescente que gostava de bicicleta, praia e surf. Mas, desta vez, o percurso tem também um propósito pessoal.
Uma viagem de bicicleta para se reencontrar
João batizou o projeto de “El Consigo Mesmo”. A ideia é buscar uma conexão consigo próprio e aprender a ser uma boa companhia para si mesmo.
A escolha de viajar sozinho não significa, entretanto, buscar isolamento. Pelo contrário: João descobriu que uma viagem de bicicleta deixa evidente o quanto o viajante depende das pessoas que encontra pelo caminho.
Ele procura levar uma vida simples, evitando hospedagens pagas sempre que possível e buscando permutas por trabalho. Também procura produzir sua própria comida durante a viagem.
“É uma busca de ser uma boa companhia para si”, explica.
Antes da viagem, foi preciso mudar a própria vida
A decisão de partir não surgiu de repente. Antes de colocar as pranchas na bicicleta, João precisou atravessar um período pessoal bastante difícil.
Formado em fisioterapia, ele concluiu mestrado e doutorado pela USP e trabalhou como professor universitário. Durante anos, construiu uma carreira acadêmica promissora. Mas a relação com aquele ambiente acabou se tornando desgastante.
João conta que desenvolveu uma autocobrança muito grande e passou a sentir que estava sempre em dívida com o trabalho. “Eu sentia que dormia e acordava achando que eu estava devendo, que eu tinha que fazer”, relata.
A distância do mar também pesava. João, que cresceu em Ilhéus, descreve como muito difícil viver longe da praia. Nesse período, ele se afastou do esporte, ganhou peso e passou a fumar e usar drogas como uma forma de fuga.
A mudança começou quando voltou para Ilhéus. Ele retomou os esportes, passou a cuidar da alimentação e recuperou uma rotina mais próxima da praia e da atividade física. Para ele, esse processo foi fundamental para recuperar o bem-estar e se afastar das drogas.
Quando João decidiu trocar a carreira pelo sonho
De volta a Ilhéus, João ainda tentou construir uma nova fonte de renda trabalhando com a mãe em peças de mosaico e madeira reaproveitada. O projeto, porém, não gerou vendas suficientes para que os dois pudessem viver dele.
Foram aproximadamente dois anos tentando fazer a atividade funcionar. Até que João percebeu que poderia continuar esperando por uma nova oportunidade profissional ou usar aquele momento para realizar um sonho antigo.
“Se eu passar num concurso daqui a dois anos ou daqui a cinco anos, isso não vai mudar muita coisa. Então eu vou tirar tempo para viver sonho”, conta.
Foi assim que a viagem de bicicleta pelo Nordeste ganhou forma.
O que sete meses de estrada já ensinaram
Depois de sete meses viajando, João diz perceber mudanças importantes em sua maneira de enxergar o mundo.
Uma das principais é a relação com opiniões diferentes. Longe da sua rotina e da sua “bolha”, ele passou a ouvir mais e pensar antes de reagir a ideias contrárias às suas.
“Eu acho que eu sou pouco mais respeitoso com as diferenças. Acho que eu consigo respeitar melhor, ouvir melhor”, afirma.
Outra descoberta foi perceber que precisa de muito menos para estar bem. João viaja com cerca de 40 quilos de bagagem, incluindo as duas pranchas, e permanece semanas ou até meses em algumas praias.
Para ele, essa experiência está mudando a própria ideia de riqueza.
“Eu estou vivendo essencial porque não está faltando nada. Desde quando eu saí, eu vou buscar minha fortuna, minha riqueza e precisar de menos, não ter mais.”
As pessoas também fazem parte da viagem
Apesar de viajar sozinho, João não está isolado. Ao longo do caminho, encontrou pessoas que ofereceram hospedagem, ajuda e até abriram suas casas.
Em Alagoas, por exemplo, uma coincidência levou João a ficar na casa de uma pessoa ligada a um conhecido de Ilhéus. Em outro momento, uma mulher permitiu que ele ficasse durante quase dois meses em sua casa enquanto cuidava de seus gatos.
Essas experiências reforçaram uma das ideias centrais da viagem: buscar autonomia não significa deixar de depender dos outros. “Por mais que eu esteja me conectando comigo, eu preciso muito das pessoas. Na estrada isso é muito claro”, afirma. Para ele, reconhecer isso também é um exercício de humildade.
O conselho de João para quem tem um sonho
João ainda não sabe exatamente onde essa viagem vai terminar. Mas, depois de sete meses na estrada, já tem uma certeza sobre o que gostaria de dizer para quem acompanha sua história.
Ele acredita que não é preciso ter o mesmo sonho de atravessar milhares de quilômetros de bicicleta. Cada pessoa tem seus próprios desejos — e o importante é encontrar uma maneira de realizá-los.
“O que eu recomendo é que as pessoas se dediquem a realizar esse sonho. Por mais difícil que pareça”, diz.
Para João, vale a pena caminhar na direção daquilo que faz o coração bater mais forte. Afinal, a realização pessoal também pode ser uma forma de descobrir que a vida vale a pena.