De bicicleta, Muriel Syriani Veluza transforma mobilidade em ativismo no litoral do Paraná

Professora aposentada, ciclista e ativista, ela passou a usar a bicicleta como meio de transporte e hoje atua pela melhoria da infraestrutura cicloviária e pelo desenvolvimento do cicloturismo na região

10/7/20264 min read

A bicicleta acompanha Muriel Syriani Veluza desde a infância. Nascida em Buenos Aires, na Argentina, ela aprendeu a pedalar por volta dos cinco anos de idade, ensinada pelo pai. Durante a adolescência, porém, deixou a bicicleta de lado, principalmente por preocupação da família com os riscos do trânsito.

Anos mais tarde, já morando em Paranaguá, no litoral do Paraná, casada e mãe de três filhos, Muriel voltou a olhar para a bicicleta de outra maneira. Professora aposentada, ela havia passado anos dependendo do carro para se deslocar e esperava o momento em que não precisaria mais levar e buscar os filhos para retomar as pedaladas.

A mudança começou a tomar forma em 2013, quando participou da organização do Fórum Mundial da Bicicleta, em Curitiba. O contato com outros ciclistas e com movimentos ligados à mobilidade urbana fez com que a bicicleta deixasse de ser apenas uma forma de transporte e passasse a ocupar um espaço também na sua atuação social.

A bicicleta como meio de transporte

Antes de se envolver diretamente com o ativismo, Muriel começou a usar a bicicleta no dia a dia.

Durante o período em que ainda trabalhava como professora, chegou a percorrer cerca de 20 quilômetros entre sua casa e o trabalho. O trajeto levava aproximadamente uma hora e, segundo ela, tornou-se muito mais do que um deslocamento.

Pedalar permitia observar o amanhecer, acompanhar o movimento da cidade e pensar antes de começar o dia. A velocidade menor também modificou sua relação com o espaço urbano.

Para Muriel, a bicicleta permite perceber a cidade em uma escala que o carro não proporciona.

“Essa hora pedalando me fazia não só observar o amanhecer muitas vezes, organizar meu dia, pensar.”

A experiência também trouxe uma percepção mais clara sobre os problemas de mobilidade e infraestrutura.

Quando a bicicleta virou ativismo

O contato com outros ciclistas durante o Fórum Mundial da Bicicleta aproximou Muriel de organizações como a Ciclo Iguaçu, associação de ciclistas da região de Curitiba, e de pessoas envolvidas com estudos e políticas de mobilidade.

A partir daí, começou a participar mais ativamente das discussões sobre infraestrutura cicloviária em Paranaguá.

Um dos problemas que ela aponta é a falta de alternativas seguras para quem precisa utilizar a bicicleta como meio de transporte. Em determinados trechos, segundo Muriel, a ausência de infraestrutura faz com que o ciclista tenha como opção uma rodovia ou simplesmente deixe de fazer o deslocamento de bicicleta.

Ela também critica estruturas classificadas como ciclovias que, na prática, apresentam obstáculos como postes, pontos de ônibus e desníveis.

“Eu não tenho tempo de ficar esquivando o poste. Não vou fazer isso e não vou usar.”

Para ela, parte do problema está na distância entre quem planeja a cidade e quem efetivamente utiliza a bicicleta.

Mulheres ciclistas e seus medos

A preocupação com a segurança levou Muriel e outros integrantes do movimento a buscar dados sobre quem pedala em Paranaguá.

A associação participou da elaboração do perfil do ciclista da cidade, com mais de 700 formulários coletados durante 30 dias. A pesquisa procurou distribuir os questionários por diferentes regiões, incluindo áreas centrais e periféricas.

Entre os resultados, apareceu uma diferença importante relacionada às mulheres: muitas disseram que não pedalam à noite e que utilizariam mais a bicicleta se houvesse infraestrutura adequada e maior segurança pública.

Para Muriel, dados como esses são fundamentais para orientar as decisões do poder público.

“Não adianta fazer coisas que a gente acha”, afirma. Para ela, é preciso conhecer as necessidades de quem efetivamente utiliza a bicicleta.

O desafio de criar uma rota de cicloturismo

A atuação de Muriel não se limita à mobilidade urbana. Ela também participa da construção da Rota Caiçara de cicloturismo, criada em 2020 no litoral do Paraná.

A proposta combina cicloturismo, mobilidade por bicicleta e turismo de base comunitária. A região possui atrativos naturais, passeios de barco e pequenas comunidades, mas, segundo Muriel, ainda precisa de estrutura para transformar esse potencial em uma rota consolidada.

Sinalização, manutenção, locais para apoio aos ciclistas e envolvimento do comércio local estão entre as necessidades apontadas por ela.

A ideia é que restaurantes, produtores, artesãos e outros empreendedores das cidades também façam parte da rota e possam se beneficiar economicamente da passagem dos cicloturistas.

O desafio, porém, está também na articulação entre os municípios. Muriel relata que é necessário apresentar repetidamente o projeto a diferentes administrações públicas e convencer cada cidade a assumir sua parte.

Para ela, a visão precisa ultrapassar os limites de cada município.

“Trabalhando juntos a gente consegue que aquilo tenha potencial maior.”

Quando a infraestrutura obriga o ciclista a mudar o caminho

Muriel também conhece, na prática, as dificuldades de viajar de bicicleta por estradas brasileiras.

Em uma viagem pela Bahia, ela e outros ciclistas encontraram trechos em que a falta de segurança viária tornou impossível continuar pedalando. Em duas ou três situações, tiveram de colocar as bicicletas em ônibus para seguir o percurso.

O problema, segundo ela, não era a dificuldade física. Estradas de terra, subidas ou trechos mais exigentes podem fazer parte da própria aventura.

O que muda a situação é quando a infraestrutura transforma o percurso em um risco.

A segurança também pesa de maneira diferente para quem viaja sozinha. Muriel afirma que prefere pedalar acompanhada e conta que, em determinado trecho de uma viagem, ela e outro ciclista chegaram a pedalar até meia-noite porque ainda não haviam encontrado um lugar para dormir.

Sozinha, diz, a situação teria sido diferente.

A bicicleta como liberdade

Apesar das dificuldades, é a sensação de autonomia que faz Muriel continuar escolhendo a bicicleta.

Ela destaca a liberdade de decidir quando sair, quando voltar e por onde circular. Também fala da conexão com a cidade e com as pessoas que o deslocamento de bicicleta proporciona.

Para Muriel, pedalar é uma atividade que combina mobilidade, bem-estar e convivência.

“É espaço e uma meditação, pedalar, para mim.”

A trajetória que começou na infância, foi interrompida durante a adolescência e retomada décadas depois acabou levando a algo maior do que simplesmente voltar a andar de bicicleta.

Hoje, Muriel atua para que outras pessoas também possam escolher a bicicleta não apenas como lazer, mas como meio de transporte e como forma de conhecer o território.

No litoral do Paraná, sua aposta passa por duas frentes que se encontram: cidades mais preparadas para quem pedala e uma região capaz de transformar o cicloturismo em uma oportunidade de desenvolvimento local.