Da América Latina à Ásia: a bicicleta como caminho para uma vida sem roteiro
Depois de percorrer a América Latina, Mariano transformou a bicicleta em ferramenta para conhecer o mundo, passou por 23 países em um ano e chegou à Ásia com apenas R$ 6 mil para financiar a viagem


Uma nova vida depois da estrada
Quando voltou para casa depois de anos viajando de bicicleta, Mariano encontrou uma situação inesperada. A estrada havia terminado, mas ele não sabia muito bem o que fazer depois dela.
“Eu chego na minha casa e eu falo: nossa, deu certo”, lembra. O sentimento de realização, porém, foi seguido por uma fase difícil. De volta à casa da mãe, começou a se sentir triste, sem vontade de fazer atividades ou mesmo voltar a trabalhar com tatuagem. Ele sentiu a depressão.
Foi nesse período que Bruno, um amigo importante em sua trajetória, reapareceu. A sugestão foi direta: por que não ir para a Europa?
A ideia ficou na cabeça de Mariano. Ele ainda não tinha dinheiro, mas decidiu criar uma maneira de viabilizar o projeto.
Quatro meses de trabalho para comprar uma passagem
Durante uma passagem pelo Sul do Brasil, Mariano procurou um camping onde já havia feito voluntariado e conseguiu trabalhar durante cerca de quatro meses.
Enquanto trabalhava, passou horas ouvindo podcasts sobre viagens de bicicleta. Um deles era apresentado por um brasileiro que havia dado a volta ao mundo pedalando. Foi assim que a Ásia começou a ganhar espaço nos planos.
Ao final da temporada de trabalho, tinha cerca de R$ 10 mil. Depois de gastar R$ 4 mil com a passagem, restavam R$ 6 mil para começar a viagem.
O plano era ambicioso: partir do Cazaquistão e chegar ao Marrocos.
“Com 6 mil reais eu tinha que fazer acontecer do Cazaquistão até o Marrocos”, conta.
A bicicleta como ferramenta para chegar onde a estrada não chega
Na Ásia Central, Mariano viajou inicialmente com dois amigos. Um deles tinha experiência em mapeamento e apresentou ao grupo rotas que não apareciam nos caminhos tradicionais usados por cicloturistas.
A experiência mudou sua maneira de enxergar a bicicleta.
Em vez de pensar apenas em pedalar, passou a considerar que, em determinados trechos, era necessário atravessar. Isso significava carregar a bicicleta, cruzar rios ou enfrentar caminhos onde não havia estrada convencional.
“Às vezes eu pedalo 80 quilômetros e tenho que empurrar cinco. Mas eu pedalei 80, então o que é cinco?”, resume.
A estratégia combinava com seu estilo de viagem, baseado no bikepacking e em uma carga reduzida. Para Mariano, a bicicleta passou a ser também uma ferramenta para acessar lugares onde outros viajantes dificilmente chegariam.
De três viajantes a uma jornada solo
A viagem pelo Cazaquistão, Tajiquistão, Geórgia e outros países da região também mudou de configuração ao longo do caminho.
Primeiro, Mariano se separou de um dos companheiros. Depois, seguiu sozinho por parte da jornada.
Na Turquia, porém, surgiu novamente a possibilidade de viajar acompanhado. Bruno, o mesmo amigo que havia incentivado a viagem para a Europa, decidiu encontrá-lo na Grécia.
Mariano acelerou o ritmo para chegar ao encontro. Os dois fizeram juntos cerca de mil quilômetros, atravessando a Grécia e chegando a Montenegro.
A despedida foi difícil. “Eu queria terminar a viagem com ele”, conta.
O dinheiro, a hospitalidade e as diferenças entre os países
Uma das experiências mais marcantes da viagem foi a relação com as pessoas encontradas pelo caminho.
Na América do Sul, Mariano diz ter recebido ajuda e hospedagem diversas vezes. Na Ásia Central, a experiência se repetiu, especialmente em regiões montanhosas e entre famílias nômades.
Em países muçulmanos como Turquia e Marrocos, também encontrou pessoas que o convidavam para comer ou ofereciam abrigo.
A experiência foi diferente na Europa. Mariano percebeu uma relação mais distante, mas, ao mesmo tempo, uma facilidade maior para conseguir dinheiro trabalhando.
“Em país de terceiro mundo, você ganha muita coisa, mas não ganha dinheiro. Então, no país de primeiro mundo, você ganha dinheiro, só que não ganha afetividade com a galera”, afirma.
Durante a viagem, ele procurava manter um orçamento extremamente baixo, chegando a viver com cerca de cinco euros por dia.
Marrocos e a decisão de voltar
Depois de atravessar parte da Europa e passar pelo Marrocos, Mariano começou a enfrentar condições que afetaram sua disposição para continuar.
Tempestades e ventos fortes atingiram a região. As condições das estradas pioraram e ele passou a questionar o sentido de continuar viajando.
No Marrocos, ainda percorreu cerca de mil quilômetros e voltou a experimentar uma hospitalidade que já conhecia de outras partes da viagem.
Mesmo assim, decidiu retornar ao Brasil.
Mas não encerrou a jornada imediatamente. Ao chegar, resolveu continuar pedalando pelo Nordeste antes de voltar definitivamente para casa. Refez parte de uma antiga rota e terminou essa etapa em Goiânia.
A estrada como aprendizado
Ao olhar para os anos de viagem, Mariano diz que a principal transformação não foi apenas geográfica.
A bicicleta o levou a 23 países em um ano e permitiu conhecer diferentes culturas, além de aprender inglês e espanhol. Mas, para ele, a experiência também mudou a maneira de enxergar dinheiro, trabalho e projetos pessoais.
“Eu acho que fazendo todo esse rolê assim, os primeiros três anos, com certeza, foi rolê sem real no bolso”, afirma.
A conclusão é direta: viajar não depende necessariamente de ter muito dinheiro, mas de planejamento, disposição e vontade de realizar o projeto.
“Eu acho que a estrada me ensinou é: se você quer, tudo é possível.”
E, apesar de já pensar em novos projetos — entre eles uma viagem para o Nepal e a Indonésia com Bruno —, uma das experiências que mais guarda é a possibilidade de continuar compartilhando a estrada com pessoas importantes para ele.
“Eu gosto muito de sozinho, mas se fosse com ele eu queria estar acompanhado.”