Com um cachorro na garupa, colombiano quer pedalar 100 mil quilômetros pela América do Sul

Aos 27 anos, Juan percorre o continente de bicicleta acompanhado de Não Sei, cão adotado no Uruguai que se tornou seu companheiro de estrada. Depois de conhecer diferentes regiões do Brasil, ele planeja atravessar a Transamazônica e seguir viagem pelos países sul-americanos.

10/31/20266 min read

Quando Juan deixou a Colômbia para viajar, não imaginava que a bicicleta se tornaria o centro de sua vida. Hoje, aos 27 anos, o cicloviajante tem uma meta ambiciosa: percorrer 100 mil quilômetros pela América do Sul. Até o momento da entrevista ao podcast De Carona na Magrela, já havia completado aproximadamente 12 mil km.

A jornada começou no Brasil, país onde vive há cinco anos e pedala há dois. Sem um roteiro fechado, Juan segue conforme as oportunidades aparecem. No caminho, recebeu uma bicicleta de doação, encontrou pessoas que o ajudaram a continuar e adotou um cachorro que passou a acompanhá-lo nas viagens.

A meta pode levar mais quatro ou cinco anos para ser concluída. Antes disso, ele quer conhecer os 27 estados brasileiros e percorrer a Transamazônica.

Da Colômbia ao Brasil: a viagem começou com uma mochila

Antes de se tornar cicloviajante, Juan trabalhava como autônomo na Colômbia, realizando diferentes serviços, principalmente na construção civil. A pandemia agravou as dificuldades financeiras da família, que chegou a passar fome e necessidade.

Depois desse período, decidiu buscar melhores condições de vida no Brasil. Chegou ao país no ano seguinte à pandemia e começou a viajar como mochileiro. Durante aproximadamente seis meses, percorreu o trajeto entre o Pará e Curitiba.

Foi em Palmas, no Tocantins, que conheceu Felipe, um brasileiro que viajava de bicicleta. O encontro despertou a vontade de fazer o mesmo. Juan tentou conseguir uma bicicleta ainda durante o deslocamento pelo país, mas só encontrou uma oportunidade quando chegou a Curitiba.

A bicicleta veio por meio de uma doação. Era uma aro 26 simples, mas suficiente para começar a nova etapa da jornada. A partir dali, a caminhada deu lugar às pedaladas.

Uma meta de 100 mil quilômetros sem roteiro definido

A inspiração para a meta veio de Heinz Stücke, um famoso cicloviajante alemão que está no livro dos recordes como a pessoa que mais andou de bicicleta. Entre 1962 e 2010, ele viajou nada menos do que 609 mil km. Heinz faleceu em 2026, aos 86 anos de idade. Ao conhecer essa história, percebeu que também poderia estabelecer um objetivo de longo prazo.

Inicialmente, pensava em fazer os 100 mil quilômetros pelo mundo. Depois, decidiu concentrar o projeto na América do Sul, continente que considera uma oportunidade de conhecer diferentes culturas sem precisar enfrentar tantas barreiras de entrada entre os países.

A previsão é concluir a meta em quatro ou cinco anos, mas não há um calendário rígido. Juan prefere permanecer mais tempo nos lugares que despertam seu interesse, em vez de seguir uma programação determinada pela distância a percorrer.

O projeto também inclui conhecer todos os estados brasileiros. Até a entrevista, ele já havia passado por diferentes regiões do país e destacava Minas Gerais e Bahia entre suas favoritas.

O cachorro que virou companheiro de estrada

Há aproximadamente um ano, Juan ganhou um novo companheiro de viagem. Em Santana do Livramento, na fronteira com o Uruguai, um homem lhe ofereceu um cachorro para adoção. Juan aceitou, mesmo depois de ter afirmado que não queria mais ter animais após perder um cachorro atropelado e precisar doar uma gata.

O novo companheiro acabou ganhando um nome inusitado: Não Sei. A história começou quando uma pessoa perguntou como o cachorro se chamava. Como Juan ainda não havia escolhido um nome, respondeu que não sabia. A resposta acabou virando o nome pelo qual o animal passou a ser chamado.

Viajar com o cachorro mudou a dinâmica da jornada. Juan conta que a companhia traz alegria e sensação de segurança, mas também impõe limitações. Alguns hotéis, hostels e parques nacionais não permitem a entrada de animais, o que exige adaptações no planejamento.

O cuidado com o cachorro também influencia a escolha das estradas. Juan evita trechos com muito movimento de carros e caminhões, principalmente pelo medo de que o animal seja atropelado, como aconteceu com seu antigo companheiro.

Em estradas de terra, costuma deixá-lo correr ao lado da bicicleta. Depois de percorrer entre 15 e 20 quilômetros, o cachorro sobe na caixa transportada na bicicleta para descansar. O animal pesa entre 17 e 20 quilos e, junto com os equipamentos, contribui para que a bicicleta carregue uma carga de aproximadamente 67 quilos.

A presença do cachorro também chama a atenção de quem encontra os dois pelo caminho. Não é raro que pessoas ofereçam comida para o animal, gravem vídeos ou parem para conversar.

Acolhimento e solidariedade pelo caminho

Entre as experiências mais marcantes de Juan está a hospitalidade que encontrou no Brasil. Ele conta que já recebeu comida, hospedagem, dinheiro, roupas e até ajuda para consertar a bicicleta.

Em uma cidade, a prefeitura chegou a comprar um pneu para ele e pagar duas semanas de hospedagem em um apartamento. Para Juan, as cidades pequenas costumam ser especialmente acolhedoras.

Minas Gerais é um dos lugares que mais o surpreenderam. Mesmo quando tinha dinheiro para pagar uma refeição, relata que moradores frequentemente ofereciam comida adicional. O gesto o marcou porque demonstrava uma generosidade que ia além da necessidade de ajudar alguém em dificuldade.

Para ele, a maneira como o viajante se apresenta faz diferença nesses encontros. “Eu acho que você vai ser bem tratado se você chegar com respeito e humildade”, afirma.

Viajar com pouco e aprender a desapegar

A vida na estrada também ensinou Juan a reduzir a quantidade de coisas que carrega. Quando começou a viajar como mochileiro, levava muitas roupas. Aos poucos, percebeu que não precisava de tanto e chegou a ficar com apenas duas camisetas e duas bermudas.

Na bicicleta, segue a mesma lógica. Leva barraca, lona para chuva, poucas roupas e ferramentas para pequenos reparos. Também procura se desfazer de equipamentos e objetos que deixam de ser necessários.

O dinheiro é outro aspecto da viagem que ele aprendeu a administrar. Juan conta que consegue seguir viagem com a ajuda de pessoas que encontra pelo caminho e que pretende retomar a produção de pulseiras para ter uma fonte de renda mais estável. Também faz malabarismo em algumas cidades, embora reconheça que o retorno financeiro varia bastante.

A experiência reforçou uma ideia que ele já trazia da infância, quando vivia com poucos recursos: é possível seguir em frente sem acumular muitas coisas. “A natureza te ensina isso, que você com pouco já é suficiente”, diz.

Um encontro que marcou a viagem

Nem todas as lembranças da estrada são positivas. Uma das experiências mais difíceis aconteceu em São Borja, no Rio Grande do Sul, durante o inverno. Juan conheceu um homem de aproximadamente 80 anos que vivia nas ruas e costumava encontrar no albergue onde estava hospedado.

Certo dia, encontrou o homem deitado em uma praça, em uma noite de frio intenso. Juan percebeu que ele estava passando mal e decidiu oferecer um dos cobertores que carregava. Quando se aproximou e tentou acordá-lo, o homem morreu.

O episódio o marcou profundamente. Juan tentou chamar o Samu e os bombeiros, mas a equipe chegou cerca de 30 minutos depois. Não foi possível salvar o homem.

A lembrança permanece entre as experiências que ele não consegue esquecer. Para o viajante, uma jornada tão longa também significa estar exposto a situações difíceis, que fazem parte da vida na estrada.

Três dias de subida, tempestade e uma descida sem freios

Entre os maiores perrengues da viagem, Juan destaca uma travessia pela Serra do Faxinal, em Santa Catarina. Foram três dias intensos, com subidas longas, chuva e problemas mecânicos.

No primeiro dia, precisou subir de aproximadamente 200 metros de altitude até 1.100 metros. A subida levou nove horas. No dia seguinte, apesar da previsão de apenas 20% de chance de chuva, ele e seu companheiro de viagem foram surpreendidos por uma tempestade com raios.

Juan parou a bicicleta, desligou o celular e se abrigou ao lado da rodovia com o cachorro. A sequência de descargas elétricas próximas provocou medo e tornou o trecho especialmente tenso.

O terceiro dia reservou outro susto. Durante a descida da Serra da Rocinha, percebeu que estava sem freios. A descida tinha muitas curvas e cerca de 32 quilômetros. Sem conseguir controlar a bicicleta, tentou usar o chinelo para frear a roda e, depois, os próprios pés no chão. Acabou sofrendo queimaduras e precisou se jogar no mato com o cachorro para interromper a descida.

Apesar do susto, Juan guarda a travessia como uma das experiências mais marcantes da viagem.

O próximo destino é a Transamazônica

No momento da entrevista, Juan estava em Palmas, no Tocantins, aguardando a renovação de seus documentos para continuar a viagem sem problemas migratórios. O próximo objetivo era percorrer a Transamazônica, em um trajeto que estimava em aproximadamente 4.232 quilômetros.

Ele pretendia dividir o percurso em etapas e, se possível, passar o aniversário, em 12 de dezembro, pedalando pela estrada.

A longo prazo, quer seguir conhecendo o Brasil e os demais países sul-americanos. Aos 27 anos, acredita que ainda tem pelo menos duas décadas de pedaladas pela frente.

A principal lição que leva da estrada é o desapego material. Para Juan, perder uma bicicleta ou algum equipamento não significa o fim da viagem: são coisas que podem ser recuperadas ou substituídas. O mais importante, diz, é ter coragem e motivação para continuar.

“Cada um tem seu sonho. Eu acho que cada um tem que lutar por ele. Nada é fácil, mas também não é nada difícil.”