Aos 67 anos, Pati Vilas, da Gaia Alforges, transforma paixão pela bicicleta em negócio artesanal
A cicloviajante começou a produzir bolsas para ciclistas depois da aposentadoria. Hoje, desenvolve peças artesanais com materiais reaproveitados e encontra nas próprias viagens a inspiração para novos produtos.


Uma vontade antiga que virou projeto de vida
A vontade de viajar de bicicleta surgiu muito antes de Pati Vilas começar a pedalar. Há mais de 30 anos, quando estava na Ilha do Cardoso (litoral de São Paulo), ela viu um grupo de ciclistas chegando à praia e ficou impressionada com a liberdade que aquelas pessoas transmitiam.
Na época, a ideia parecia distante. Pati trabalhava em dois empregos e tinha filhos. Viajar de bicicleta não parecia compatível com sua rotina.
Anos depois, começou a pedalar para ir ao trabalho e passou a fazer passeios com amigos. Ao conhecer um grupo de cicloviajantes, descobriu o cicloturismo e aprendeu a usar alforjes, bolsas instaladas na bicicleta para transportar a bagagem.
Outra experiência marcante aconteceu durante uma viagem à Bélgica, onde visitou a filha. Ao chegar a uma estação de trem, encontrou um estacionamento repleto de bicicletas. Chamou sua atenção ver mulheres, crianças e idosos usando a bicicleta no cotidiano, inclusive com roupas de trabalho, vestidos e salto alto.
Também reparou nos alforjes coloridos que acompanhavam essas bicicletas. A imagem ficou guardada na memória.
A aposentadoria como ponto de partida
Depois de se aposentar, Pati decidiu retomar aquela ideia e começar a produzir seus próprios alforjes. Não sabia costurar nem tinha experiência com moldes ou desenvolvimento de produtos.
Com uma amiga, começou a aprender na prática. Seu primeiro molde foi feito a partir de um alforje que ela já possuía: desmontou a peça e copiou suas partes em papel. Depois, passou a usar outros materiais até aperfeiçoar o processo.
A primeira venda também foi marcante. “A primeira pessoa que comprou eu amo de paixão, porque ele acreditou em mim”, conta, aos risos.
O que começou como uma iniciativa ligada à própria experiência de ciclista se transformou na Gaia Alforges, uma empresa de produção artesanal de acessórios para quem pedala.
Sustentabilidade e criatividade na escolha dos materiais
A preocupação com o reaproveitamento de materiais se tornou um dos diferenciais do negócio. Pati passou a trabalhar com lona de caminhão, banners e tecidos desenvolvidos a partir de combinações de fibras, entre outros materiais.
Encontrar a matéria-prima pode fazer parte da aventura. Em uma ocasião, ao perceber uma lona rosa em um caminhão, chamou a atenção do motorista para conseguir conversar com ele no meio da estrada.
Além dos alforjes, a Gaia passou a oferecer outros produtos. Hoje, Pati trabalha com uma linha de 11 tipos de peças, incluindo bolsas e acessórios que surgiram de necessidades observadas durante as viagens.
A experiência de campo também levou à criação de uma bolsa térmica, apelidada de “marmiteira”, pensada para viagens com trechos de acampamento selvagem. A lógica é observar o que falta na estrada e transformar a necessidade em produto.
As viagens também orientam o negócio
Pati continua viajando de bicicleta e usa essas experiências para aprimorar suas criações. Muitas ideias surgem de problemas enfrentados por ela ou por amigas que pedalam juntas. Outras vêm da observação de equipamentos usados por ciclistas e praticantes de diferentes esportes.
Essa troca não se limita ao universo da bicicleta. Quando visitou o filho, que pratica kitesurfe, desenvolveu peças para transportar objetos que precisavam ficar protegidos da água.
O processo de criação acompanha, assim, a própria rotina da empreendedora: viajar, observar, testar e desenvolver soluções.
A relação entre produto e experiência também aparece no atendimento ao público. Pati costuma registrar os gastos e detalhes das próprias viagens e compartilha essas informações com pessoas que a procuram para tirar dúvidas sobre cicloturismo, mesmo quando não pretendem comprar uma peça.
A Gaia Alforges é uma empresa essencialmente artesanal. Pati compra os materiais, corta, desenvolve os modelos, procura novas matérias-primas, participa de feiras e cuida da administração. Apenas a costura fica a cargo de outra pessoa.
Enfrentando o etarismo na estrada
A idade também faz parte da história de Pati. Aos 67 anos, ela relata que algumas pessoas se surpreendem ao descobrir quem está por trás da marca ou ao encontrá-la conduzindo grupos de ciclistas.
Em uma dessas experiências, foi convidada a liderar passeios de bicicleta por São Paulo. No primeiro encontro, um participante demonstrou espanto ao descobrir que era ela quem conduziria o grupo.
Pati seguiu com o percurso e, depois de uma subida pela região da Consolação, centro de São Paulo, percebeu que o participante havia mudado de atitude. Os dois acabaram se tornando amigos.
Para ela, a surpresa revela como ainda é incomum ver mulheres mais velhas pedalando e viajando de bicicleta no Brasil. Em viagens internacionais, diz ter encontrado mais mulheres e pessoas idosas na estrada.
Pati também defende que não existe uma única maneira correta de viajar. Cada pessoa deve encontrar a modalidade que combina com suas condições e desejos, sem desmerecer quem prefere acampar, ficar em hotéis, viajar com guia ou percorrer distâncias menores.
A liberdade de precisar de menos
Entre as viagens que guarda com mais carinho está o percurso de São Paulo a Buenos Aires pela Praia do Cassino, no Rio Grande do Sul, seguindo depois pelo Uruguai. A paisagem deserta, os animais, as conchas e o contato com a natureza fizeram da experiência uma de suas favoritas.
Durante a travessia, enfrentou calor intenso e dificuldades para encontrar onde dormir. Em um momento, chegou a procurar uma delegacia para pedir orientação, até descobrir um parque onde poderia acampar.
São situações que, para ela, fazem parte das histórias boas de lembrar. Pati diz que raramente considera uma experiência um verdadeiro perrengue, porque acredita que os problemas acabam encontrando uma solução.
Mais do que conhecer lugares, viajar de bicicleta permite aprender com as pessoas, descobrir outras culturas e experimentar uma vida com menos dependência de bens materiais.
“Você senta no lugar, numa calçada, e olha a sua bicicleta, você fala: tudo que eu preciso está ali”, afirma.
Para Pati, a bicicleta representa liberdade e uma maneira diferente de viver. A Gaia Alforges nasceu dessa relação: uma paixão que começou como vontade de viajar, virou aprendizado depois da aposentadoria e hoje também é fonte de renda e conexão com outras pessoas que compartilham o mesmo interesse.